A paz do Senhor Jesus!
Espero que neste dia, este artigo te encontre super bem. 😊
Resolvi trazer aqui este estudo acerca da aula de um dos meus professores para, antes de vocês, eu mesmo frizar o entendimento em minha memória. Espero que, com este SUPER resumo do que eu chamo de macro entendimento dessa introdução, você consiga ter uma dimensão (mais ou menos) do que se pode ser estudado. E apenas uma ponta de iceberg.
De todo modo, eis me aqui para trilharmos juntos este caminho.
Faz tua oração e pede entendimento ao Senhor, pega teu café e vamos lá.
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| Acervo próprio - Pão e Cristo |
1. O que significa estudar o Novo Testamento?
Uma introdução ao Novo Testamento não pretende esgotar o
assunto. Você não estudará tudo o que temos para ver, numa introdução. O Novo Testamento é um campo de estudo muito amplo, e uma única aula,
ou mesmo um curso introdutório, não é suficiente para apresentar tudo o que
pode ser estudado sobre seus livros, autores, contextos, comunidades e
processos históricos. O propósito de uma introdução é, antes de tudo, abrir
caminhos: apresentar as questões fundamentais e provocar o estudante a
continuar pesquisando, lendo e fazendo perguntas. Pra você ter uma ideia, existem pos graduações, mestrados e até doutorados acerca apenas do Novo Testamento. Deste mesmo artigo aqui, eu poderia trazer inúmeros outros artigos mais detalhados. E posso até pensar sobre isso.
Estudar o Novo Testamento, portanto, não deve significar
apenas acumular informações sobre os 27 livros que aparecem em nossas Bíblias.
É necessário compreender o ambiente no qual esses escritos surgiram, as
comunidades que os receberam, as experiências que deram origem às primeiras
tradições cristãs e o processo pelo qual diversos escritos foram produzidos,
transmitidos, reconhecidos e, posteriormente, reunidos na coleção que hoje
chamamos de Novo Testamento.
O estudo do Novo Testamento também deve produzir uma fé mais
madura. O conhecimento teológico não deve permanecer separado da vida. Conhecer
melhor os textos, seu contexto e sua formação devem contribuir para uma fé
adulta, consciente e capaz de refletir sobre aquilo que crê.
Por isso, estudar o Novo Testamento é também estudar as
origens do cristianismo.
2. Novo Testamento e cristianismo não podem ser separados
Quando abrimos a Bíblia, encontramos o Novo Testamento como
uma coleção já organizada de 27 livros. Isso pode criar uma impressão
equivocada: a de que primeiro surgiu o cristianismo e, depois, em algum
momento, apareceu um livro pronto chamado Novo Testamento; ou, ao contrário,
que primeiro surgiu o Novo Testamento e ele teria criado e estruturado o
cristianismo.
A realidade apresentada na aula é diferente. O
cristianismo e aquilo que posteriormente seria chamado de Novo Testamento
desenvolveram-se ao mesmo tempo.
O movimento cristão nasceu a partir de Jesus, de sua
pregação, de sua morte e da experiência da ressurreição, e foi inicialmente
transmitido por meio do anúncio oral. À medida que as comunidades cristãs
surgiam, cresciam e enfrentavam diferentes circunstâncias, também surgiam os
escritos que posteriormente seriam reunidos como Novo Testamento.
Por isso, não podemos estudar o Novo Testamento isolando-o
da história do cristianismo primitivo. As tensões, crises, rivalidades,
necessidades pastorais, expansão missionária e experiências das primeiras
comunidades estão relacionadas ao surgimento e à transmissão desses textos.
O Novo Testamento não apareceu como uma coleção pronta.
Houve um processo histórico no qual comunidades cristãs conservaram tradições,
transmitiram ensinamentos, produziram escritos e, ao longo do tempo,
reconheceram determinados textos como normativos para a fé cristã.
Essa percepção é fundamental para o estudo dos Evangelhos.
Antes de termos Mateus, Marcos, Lucas e João como livros encadernados em nossas
Bíblias, houve comunidades que receberam e transmitiram oralmente a memória de
Jesus.
3. Jesus é o ponto de partida
O ponto de partida dessa história é Jesus de Nazaré.
Jesus era judeu. Viveu dentro do judaísmo, cresceu em um
ambiente judaico e seus primeiros discípulos também eram judeus. Portanto, os
primeiros seguidores de Jesus não começaram sua caminhada pensando que estavam
criando uma nova religião completamente separada do judaísmo.
Jesus anunciou a chegada do Reino de Deus. Sua mensagem
estava relacionada às promessas que Deus havia feito ao povo de Israel ao longo
de sua história. Para seus primeiros seguidores, Jesus estava relacionado às
expectativas presentes nas Escrituras de Israel, especialmente à esperança da
ação de Deus em favor de seu povo.
Depois de sua morte e ressurreição, entretanto, aquilo que
havia começado dentro do ambiente judaico começou a adquirir uma dimensão muito
mais ampla. O anúncio sobre Jesus ultrapassou os limites geográficos e
culturais de Israel e alcançou pessoas de outros povos.
O professor apresenta, assim, uma trajetória que pode ser
resumida da seguinte maneira:
Jesus → anúncio do Reino de Deus → morte e ressurreição →
testemunho dos discípulos → pregação → comunidades cristãs → tradição oral →
escritos → Novo Testamento.
Essa sequência ajuda a compreender que os livros do Novo
Testamento são resultado de uma história anterior aos próprios livros.
4. O ambiente judaico e a expectativa messiânica
Para compreender Jesus, é necessário compreender o judaísmo
de seu tempo.
Israel vivia sob domínio romano. Antes dos romanos, a região
já havia experimentado diferentes dominações estrangeiras, inclusive o domínio
relacionado ao mundo helenístico. A história de Israel era marcada pela
experiência de povos estrangeiros exercendo poder sobre o território.
Nesse ambiente, existia entre os judeus uma expectativa
relacionada à vinda do Messias.
A esperança messiânica estava relacionada às promessas de
Deus e à expectativa de restauração de Israel. O Messias era compreendido
dentro desse horizonte como aquele que traria libertação, restauraria o povo e
inauguraria uma nova realidade para Israel.
A presença romana tornava essa expectativa ainda mais
significativa. Israel não era um povo politicamente independente, e a esperança
de libertação fazia parte do ambiente religioso e social em que Jesus
desenvolveu sua missão.
É importante perceber que Jesus não surgiu em um vazio
religioso. Ele surgiu em uma tradição que possuía Escrituras, memória
histórica, práticas religiosas e expectativas acerca da ação futura de Deus.
A questão messiânica, portanto, ajuda a entender tanto a
atração inicial que Jesus exerceu sobre as multidões quanto as dúvidas que
posteriormente surgiram em torno de sua identidade.
Muitos esperavam um Messias que restaurasse Israel.
Entretanto, Jesus não correspondia simplesmente às expectativas políticas que
algumas pessoas poderiam ter associado ao Messias. Ele não reuniu um exército
nem apresentou uma revolta armada contra Roma. Sua mensagem enfatizava o Reino
de Deus, o amor, o perdão e uma transformação que não se limitava à libertação
política.
Por isso, enquanto algumas pessoas começaram a reconhecer
Jesus como Messias, outras passaram a questionar se ele realmente correspondia
àquilo que esperavam do Messias.
5. Jesus dentro do judaísmo de seu tempo
Jesus frequentava as sinagogas e ia ao templo de Jerusalém.
Isso não deveria ser visto como algo estranho, pois fazia parte da vida
religiosa judaica.
O templo possuía uma posição central no culto, enquanto as
sinagogas estavam espalhadas por diferentes localidades e funcionavam como
espaços de leitura da Torá, oração e ensino. Dessa maneira, o judaísmo possuía
tanto uma referência central em Jerusalém quanto uma presença religiosa
descentralizada nas comunidades.
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| Jesus visitando sinagoga - Acervo próprio - Pão e Cristo |
O judaísmo do período, entretanto, não era uma realidade
completamente uniforme. A presença de outros povos e culturas havia produzido
mudanças na vida social e cultural dos judeus.
Dentro desse cenário existiam diferentes grupos e correntes.
A aula menciona especialmente fariseus, saduceus e essênios.
Os saduceus estavam particularmente relacionados ao ambiente
do templo. Os fariseus tinham forte presença entre o povo e se preocupavam com
a observância da Lei. Os essênios, por sua vez, procuravam viver de maneira
mais retirada, buscando uma vida marcada por maior rigor ritual.
Essas diferenças são importantes porque ajudam a compreender
algumas das controvérsias de Jesus.
Uma parte do conflito de Jesus com os fariseus estava
relacionada à maneira de compreender e aplicar a Lei. A exposição apresentada
na aula enfatiza que, na perspectiva de Jesus, a Lei não deveria transformar-se
em um peso colocado sobre as pessoas. Ela deveria cumprir sua finalidade de
conduzir à vida e à libertação.
Assim, as controvérsias entre Jesus e determinados grupos
religiosos não devem ser entendidas simplesmente como uma oposição entre Jesus
e o judaísmo. Jesus estava inserido no judaísmo e discutia questões internas
daquele universo religioso.
Essa observação é importante para evitar uma leitura
anacrônica que imagine Jesus como alguém que simplesmente apareceu para
abandonar o judaísmo e fundar imediatamente uma religião completamente
diferente.
6. Da morte de Jesus à ressurreição
A morte de Jesus pareceu, inicialmente, representar o
fracasso de sua missão.
Ele foi preso, condenado, crucificado e morto. Para aqueles
que esperavam um Messias que libertasse Israel, sua morte poderia significar
que a expectativa havia terminado.
Entretanto, a ressurreição muda completamente o curso dessa
história.
Para os primeiros cristãos, Deus ressuscitou Jesus. Essa
experiência tornou-se o centro da pregação apostólica e passou a confirmar,
para eles, a identidade e a missão de Jesus.
A ressurreição não foi apenas mais um elemento da mensagem
cristã. Ela tornou-se o fundamento do testemunho que permitiu que o movimento
iniciado por Jesus continuasse depois de sua morte.
A convicção de que Jesus havia vencido a morte deu aos
primeiros discípulos a certeza necessária para anunciar sua mensagem. A partir
daí, eles passaram a proclamar que Jesus era o Cristo, o Filho de Deus e o
Salvador ressuscitado.
Sem a ressurreição, segundo a linha de raciocínio
apresentada na aula, Jesus poderia ter permanecido apenas como uma figura
religiosa marcante do judaísmo de seu tempo: um mestre, profeta ou personagem
conhecido por suas curas e ensinamentos. A ressurreição, porém, foi aquilo que
deu ao movimento uma força e uma direção completamente diferentes.
A fé na ressurreição, portanto, está no centro da origem do
cristianismo. Ela dá origem à pregação apostólica, à formação das comunidades
e, posteriormente, aos escritos que constituirão o Novo Testamento.
7. Antes dos livros, houve o anúncio
Um dos pontos mais importantes da introdução é compreender
que a tradição cristã começou oralmente.
Os primeiros discípulos não receberam um Novo Testamento
pronto para levar consigo enquanto anunciavam Jesus. O anúncio veio primeiro
por meio da pregação.
Depois da morte e ressurreição de Jesus, seus ensinamentos e
os acontecimentos relacionados à sua vida foram preservados na memória das
comunidades e transmitidos oralmente.
O professor utiliza, para fins de localização, uma data
aproximada para a morte e ressurreição de Jesus em torno do ano 30. As
primeiras cartas de Paulo são apresentadas como surgindo aproximadamente na
década de 50. Isso significa que existe um intervalo considerável entre a morte
e ressurreição de Jesus e os primeiros escritos cristãos que posteriormente
fariam parte do Novo Testamento.
Isso não significa que não houvesse nenhuma escrita nesse
período. O ponto é que a transmissão oral predominava.
Os primeiros cristãos preservavam a memória de Jesus por
meio da pregação e do ensino. À medida que o tempo passava, entretanto, surgiu
uma necessidade cada vez maior de registrar por escrito aquilo que havia sido
recebido.
As pessoas que haviam conhecido Jesus ou convivido com os
primeiros apóstolos estavam envelhecendo e morrendo. Se a memória permanecesse
somente na transmissão oral, existiria o risco de que aquilo que havia sido
anunciado se perdesse.
A escrita surge, então, também como uma forma de preservação
da memória.
O processo pode ser compreendido como uma passagem:
memória → tradição oral → testemunho → ensino → reflexão
das comunidades → tradição escrita.
Os livros do Novo Testamento são, portanto, resultado de um
processo longo que envolve memória, testemunho, ensino e reflexão das
comunidades cristãs sobre a pessoa e a obra de Jesus Cristo.
8. O que significa a palavra “Testamento”?
A palavra "Testamento" possui uma história
importante.
Na exposição, é apresentada sua relação com o latim testamentum
e com o grego diathēkē, relacionado à ideia de aliança.
Nesse sentido, falar em "Novo Testamento"
originalmente não significava simplesmente falar de um conjunto de livros. A
expressão estava relacionada à ideia de uma nova aliança estabelecida
por Deus.
Essa linguagem de aliança já estava presente na história
bíblica. Deus havia estabelecido alianças e, dentro da tradição profética,
também havia a expectativa de uma nova aliança.
Paulo, por exemplo, trabalha com a linguagem de antiga e
nova aliança. A ideia da nova aliança passa a ser associada àquilo que Deus
realiza em Jesus Cristo.
Somente posteriormente a expressão "Novo
Testamento" passou a designar também o conjunto dos novos escritos
reconhecidos pelas comunidades cristãs.
Assim, temos dois sentidos que se aproximaram
historicamente: primeiro, a ideia teológica da nova aliança;
posteriormente, a designação do conjunto de escritos que testemunhavam
essa nova aliança e eram reconhecidos como canônicos.
9. Do testemunho oral aos escritos
O surgimento dos escritos cristãos não aconteceu porque as
primeiras comunidades simplesmente decidiram produzir livros por interesse
literário.
Havia uma necessidade concreta de preservar e transmitir a
tradição recebida.
O cristianismo estava crescendo. As comunidades estavam se
espalhando para diferentes regiões. Novas gerações estavam chegando. O anúncio
precisava alcançar pessoas que não haviam conhecido pessoalmente Jesus nem os
primeiros apóstolos.
Nesse contexto, os escritos passam a cumprir uma função
fundamental.
Eles preservam a memória daquilo que havia sido anunciado e
testemunhado.
Por isso, os livros do Novo Testamento podem ser
compreendidos como resultado de um processo de transmissão. Não são
simplesmente registros isolados de acontecimentos. Eles carregam a memória das
comunidades e seu testemunho acerca de Jesus.
A fidelidade àquilo que havia sido recebido tornou-se
fundamental. A tradição escrita precisava conservar aquilo que havia sido
anunciado pelos apóstolos.
É dentro desse processo que se desenvolve aquilo que
posteriormente seria reconhecido como o conjunto dos escritos canônicos do Novo
Testamento.
10. Os 27 livros e o processo de canonização
Hoje recebemos o Novo Testamento como uma coleção de 27
livros. Essa coleção possui quatro Evangelhos, Atos dos Apóstolos, as cartas de
Paulo, as cartas gerais ou católicas e o Apocalipse.
Entretanto, existiram outros escritos cristãos.
Foram escritos outros evangelhos, outros atos, outras cartas
e outros apocalipses. Nem todos esses textos foram reconhecidos pelas
comunidades cristãs como Escrituras inspiradas.
Isso nos conduz ao tema do cânon.
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| Ilustração do momento de canonização dos livros - Novo Testamento |
Os livros que hoje encontramos no Novo Testamento são
chamados de canônicos porque foram reconhecidos pelas comunidades cristãs como
textos normativos para a fé. O processo de reconhecimento não aconteceu
imediatamente. Houve um longo período no qual diferentes comunidades tiveram
contato com diferentes escritos e, ao longo do tempo, determinados textos
adquiriram reconhecimento mais amplo.
A aula chama atenção justamente para o fato de que os 27
livros não apareceram desde o primeiro momento como uma coleção fechada.
Durante os primeiros séculos do cristianismo, continuaram
circulando e sendo produzidos outros escritos. Alguns foram posteriormente
reconhecidos como canônicos; outros permaneceram fora do cânon.
Por isso, estudar o Novo Testamento também exige compreender
a história de sua formação como coleção.
11. Os escritos apócrifos
Os escritos que não foram recebidos como parte do cânon do
Novo Testamento são frequentemente chamados de apócrifos.
O fato de um texto ser apócrifo não significa que ele seja
necessariamente inútil para o estudo teológico ou histórico. Ele não possui,
para a fé cristã que reconhece o cânon, a mesma autoridade dos textos
canônicos. Entretanto, pode fornecer informações importantes sobre o ambiente
religioso, cultural e intelectual no qual o cristianismo primitivo se
desenvolveu.
Por isso, o estudante de Teologia pode ler esses textos não
como se fossem Escrituras, mas como documentos que ajudam a conhecer o ambiente
do cristianismo antigo.
Essa distinção exige cuidado. Um texto deve ser lido levando
em consideração seu contexto, gênero, finalidade e lugar dentro da história.
A aula faz uma observação particularmente importante: não
é apenas um texto apócrifo que pode ser mal interpretado; qualquer texto
religioso pode ser perigoso quando é retirado de seu contexto ou interpretado
sem os instrumentos necessários.
Isso vale inclusive para a própria Bíblia. O problema não
está simplesmente no fato de alguém ler um texto, mas em lê-lo sem compreender
aquilo que está lendo, seu contexto e as questões envolvidas em sua
interpretação.
12. Por que os Evangelhos foram escritos?
Com o crescimento das comunidades cristãs e a expansão
missionária, tornou-se necessário preservar e transmitir às novas gerações
aquilo que os apóstolos haviam recebido e anunciado.
É nesse contexto que os Evangelhos ganham sua importância.
Mateus, Marcos, Lucas e João apresentam aquilo que é
essencial para conhecer Jesus: quem ele foi, aquilo que ensinou, aquilo que
realizou e o significado de sua morte.
O Evangelho não pretende registrar absolutamente tudo o que
Jesus fez.
O próprio Evangelho de João, conforme lembrado na aula,
afirma que muitas outras coisas poderiam ser registradas. A conclusão
apresentada é que aquilo que foi colocado por escrito deve ser compreendido
como aquilo que era necessário para o testemunho transmitido pelas comunidades.
Os Evangelhos, portanto, são escritos destinados a conservar
e transmitir a memória de Jesus para pessoas que não haviam convivido
pessoalmente com ele.
Eles preservam o testemunho acerca de sua vida, seu ensino,
suas obras, sua morte e o significado de sua ressurreição.
Nesse sentido, os Evangelhos ocupam uma posição central
dentro do Novo Testamento porque nos colocam diretamente diante da pessoa de
Jesus Cristo.
13. O ambiente helenista
O cristianismo não se desenvolveu apenas dentro do ambiente
judaico. Desde muito cedo, esteve inserido em um mundo marcado também pela
cultura grega e pelo domínio romano.
Um dos conceitos fundamentais para compreender esse cenário
é helenismo.
O helenismo corresponde à expansão da cultura grega pelo
mundo antigo, especialmente após as conquistas de Alexandre. Essa expansão não
significou apenas a circulação de ideias filosóficas ou costumes gregos. Uma
das consequências mais importantes foi a ampla utilização da língua grega.
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| Ambiente helenista - Pao e Cristo |
A língua grega tornou-se um importante meio de comunicação
entre diferentes povos e regiões.
Regiões como Egito, Síria, Ásia Menor, Acaia e Itália
estavam inseridas nesse amplo ambiente cultural. Mesmo povos que possuíam suas
próprias línguas e tradições podiam utilizar o grego para se comunicar com
pessoas de outras regiões.
Na Galileia, por exemplo, o aramaico possuía grande
importância como língua cotidiana, mas o grego também estava presente. Isso
permitia a comunicação com pessoas de diferentes origens.
Essa realidade é fundamental para compreender a expansão do
cristianismo.
14. O grego e a expansão do cristianismo
O Novo Testamento foi escrito em grego.
Isso possui uma importância enorme para a história de sua
transmissão. Se a mensagem cristã permanecesse restrita a uma língua utilizada
dentro de um ambiente judaico específico, sua circulação teria sido muito mais
limitada.
O grego funcionava como uma língua de comunicação ampla no
mundo mediterrâneo. Assim, a mensagem sobre Jesus poderia atravessar fronteiras
culturais e geográficas.
Isso foi especialmente importante para a expansão do
cristianismo entre os não judeus.
Paulo aparece nesse processo como uma figura fundamental.
Ele defendeu que a mensagem cristã deveria ultrapassar os limites estritamente
judaicos e alcançar outros povos.
A língua grega forneceu uma ferramenta fundamental para essa
expansão.
Além da língua, o helenismo também significava influência
sobre costumes, comportamento, arquitetura, administração e outras dimensões da
vida social.
Portanto, os primeiros cristãos viviam em um mundo no qual
sua identidade judaica coexistia com uma cultura mais ampla, profundamente
influenciada pelo helenismo.
15. Judaísmo, helenismo e Império Romano
O ambiente em que o cristianismo e o Novo Testamento
surgiram pode ser compreendido a partir da interação de três grandes
realidades:
o judaísmo, a cultura grega e o Império Romano.
O judaísmo forneceu as raízes religiosas e teológicas do
cristianismo.
Jesus era judeu. Os primeiros discípulos eram judeus. As
Escrituras de Israel constituíam a base religiosa a partir da qual Jesus e seus
primeiros seguidores compreendiam a ação de Deus.
O cristianismo, portanto, possui raízes profundas no
judaísmo, ainda que posteriormente ultrapasse os limites culturais e religiosos
daquele ambiente.
A cultura grega, por sua vez, forneceu uma língua e um
ambiente cultural que favoreceram a comunicação da mensagem cristã para além da
Palestina.
Muitos conceitos utilizados posteriormente na reflexão
teológica cristã seriam expressos por meio de termos gregos. O próprio
desenvolvimento da linguagem teológica cristã foi profundamente marcado pela
língua e pelo pensamento grego.
Já o Império Romano forneceu o ambiente político e
estrutural no qual essa expansão aconteceu.
Dessa maneira, podemos guardar uma fórmula importante para
compreender o contexto do Novo Testamento:
O Novo Testamento nasceu em ambiente judaico, foi escrito
em grego e desenvolveu-se sob o domínio romano.
16. A contribuição indireta do Império Romano
Pode parecer contraditório afirmar que o Império Romano
contribuiu para a expansão do cristianismo, especialmente porque foi sob o
poder romano que Jesus foi condenado e crucificado.
Entretanto, a questão apresentada na aula não é moral, mas
estrutural.
O Império Romano possuía uma extensa rede de estradas que
facilitava o deslocamento entre diferentes regiões. Também havia uma relativa
segurança nas rotas marítimas do Mediterrâneo, especialmente pela redução da
pirataria.
Essas condições facilitaram viagens e circulação de pessoas
e ideias.
Paulo, por exemplo, realizou diversas viagens missionárias.
A existência de uma infraestrutura que permitia o deslocamento por terra e mar
contribuiu para que sua missão alcançasse diferentes regiões.
Assim, o mesmo império que exercia domínio político sobre os
povos também proporcionava condições estruturais que, posteriormente,
favoreceriam a circulação do cristianismo.
A expansão cristã aconteceu, portanto, dentro de uma
realidade política romana, em um mundo culturalmente helenizado e a partir de
raízes religiosas judaicas.
17. Jesus e o testemunho cristão
O cristianismo nasce da necessidade de testemunhar sobre
Jesus.
O centro desse testemunho não é simplesmente a lembrança de
um mestre que viveu no passado. O anúncio cristão afirma que Jesus morreu e
ressuscitou.
A ressurreição torna-se o núcleo da pregação.
Os primeiros cristãos anunciam que Deus venceu a morte,
confirmou a identidade de Jesus e confirmou sua missão. Essa convicção sustenta
a formação das primeiras comunidades.
A mensagem cristã, portanto, não começa com um livro. Começa
com um acontecimento interpretado e anunciado pela fé: a vida, morte e
ressurreição de Jesus.
Depois vem a pregação. Depois, a formação das comunidades. E
somente posteriormente a produção de diversos escritos.
Essa ordem é fundamental para não imaginar o Novo Testamento
como o ponto inicial absoluto do cristianismo.
O Novo Testamento é fruto de uma história que começa antes
dele.
18. O Novo Testamento como memória da Igreja primitiva
Podemos compreender o Novo Testamento como uma grande
memória escrita das origens cristãs.
Essa memória não surgiu de uma única vez. Ela foi construída
ao longo do tempo.
Primeiro houve acontecimentos.
Depois houve testemunhas.
As testemunhas anunciaram aquilo que haviam recebido.
As comunidades conservaram esse anúncio.
O ensino foi transmitido às novas gerações.
As circunstâncias históricas exigiram que parte dessa
memória fosse registrada por escrito.
Alguns escritos foram recebidos pelas comunidades como fiéis
ao testemunho apostólico e reconhecidos como inspirados.
Posteriormente, esses textos foram reunidos na coleção que
chamamos de Novo Testamento.
Assim, os 27 livros que temos hoje representam o resultado
final de um processo muito mais longo.
O Novo Testamento é, portanto, simultaneamente uma coleção
de escritos e o resultado de uma história de transmissão, testemunho, reflexão
e reconhecimento comunitário.
19. A estrutura do Novo Testamento
A coleção do Novo Testamento está organizada em grandes
grupos.
Primeiro aparecem os quatro Evangelhos: Mateus, Marcos,
Lucas e João.
Depois vem Atos dos Apóstolos, associado a Lucas.
Em seguida aparecem as cartas de Paulo, seguidas
pelas chamadas cartas católicas ou gerais.
Por fim encontramos o Apocalipse de João.
Essa estrutura, porém, não deve nos fazer imaginar que foram
esses os únicos escritos produzidos pelos primeiros cristãos.
Houve outros evangelhos, outros relatos de atos apostólicos,
outras cartas e outros textos apocalípticos. O que distingue os livros que
encontramos no Novo Testamento é o reconhecimento de sua autoridade dentro do
processo de formação do cânon.
Os demais escritos continuam sendo úteis para a pesquisa
histórica e cultural, especialmente quando queremos compreender a diversidade
de ideias e tradições existentes no cristianismo antigo. Mas não ocupam o mesmo
lugar dos livros canônicos dentro da Escritura cristã.
20. Por que estudar o Novo Testamento?
O Novo Testamento constitui uma das principais fontes para
conhecermos Jesus Cristo, as primeiras comunidades cristãs e a expansão do
cristianismo.
Nele está preservada a memória dos acontecimentos que deram
origem à fé cristã.
Seu impacto, entretanto, ultrapassa a própria história
religiosa. O Novo Testamento influenciou profundamente a teologia, a cultura, a
ética e a história das sociedades.
Estudá-lo significa, portanto, compreender melhor as origens
de uma das tradições religiosas mais importantes da humanidade.
Para o estudante de Teologia, esse estudo possui uma
importância ainda maior. Não se trata simplesmente de conhecer informações
históricas sobre livros antigos. Trata-se de compreender os textos que estão na
base da fé cristã e investigar como eles surgiram, como foram transmitidos e
como as primeiras comunidades compreenderam Jesus e sua obra.
Conhecer o Novo Testamento exige, portanto, aproximar-se de
seus textos com atenção histórica, literária e teológica.
21. Síntese da introdução
O Novo Testamento que encontramos hoje é uma coleção de 27
livros, mas esses livros são o resultado de uma história muito maior.
Tudo começa com Jesus de Nazaré, judeu inserido no contexto
religioso e histórico de Israel. Jesus anuncia o Reino de Deus e é compreendido
por seus seguidores dentro das expectativas relacionadas às promessas de Deus
feitas a Israel.
Sua morte parece representar o fim de seu movimento, mas a
fé na ressurreição transforma completamente essa realidade. Os discípulos
passam a testemunhar que Deus ressuscitou Jesus, confirmou sua identidade e sua
missão e, por meio dele, inaugurou uma nova realidade de salvação.
Esse testemunho é inicialmente transmitido de forma oral.
As primeiras comunidades cristãs surgem e se espalham. O
cristianismo ultrapassa progressivamente os limites do judaísmo e entra em
contato com diferentes povos e culturas.
Esse movimento acontece em um mundo marcado pelo judaísmo,
pelo helenismo e pelo domínio romano.
O judaísmo fornece as raízes religiosas e teológicas.
O helenismo oferece uma ampla realidade cultural e
linguística, especialmente por meio da língua grega.
O Império Romano fornece o ambiente político e uma
infraestrutura que facilita a circulação de pessoas e ideias.
Nesse contexto, a tradição oral começa gradualmente a ser
registrada por escrito. Os escritos preservam a memória de Jesus e o testemunho
apostólico.
Com o crescimento das comunidades, alguns textos ganham
ampla recepção. Outros escritos também circulam, mas não são reconhecidos como
canônicos.
Ao longo de um processo histórico, a Igreja reconhece
determinados escritos como normativos para sua fé. Esses textos formam aquilo
que posteriormente chamamos de Novo Testamento.
Por isso, o Novo Testamento não pode ser compreendido
separado da história do cristianismo primitivo.
Ele nasceu da memória de Jesus, do testemunho da
ressurreição, da pregação apostólica e da vida das primeiras comunidades. Ao
mesmo tempo, passou a preservar essa memória para as gerações seguintes.
Estudar o Novo Testamento é, portanto, entrar em contato com
as origens da fé cristã e com o processo pelo qual o testemunho sobre Jesus
passou da memória e da pregação para os escritos que chegaram até nós.
E é justamente por isso que uma introdução ao Novo
Testamento não encerra o assunto. Ela deve produzir o desejo de continuar
estudando.
O objetivo não é sair da introdução sabendo tudo sobre o
Novo Testamento. É sair dela sabendo quais perguntas fazer, quais caminhos
percorrer e por que esses textos são fundamentais para compreender Jesus
Cristo, a Igreja primitiva e a própria fé cristã.
Ideia central para guardar
O Novo Testamento não surgiu pronto. Ele nasceu dentro da
história do cristianismo primitivo: começa com Jesus, passa pelo testemunho de
sua morte e ressurreição, é transmitido inicialmente de forma oral, ganha forma
escrita conforme as comunidades se expandem e, depois de um longo processo de
recepção e reconhecimento, constitui a coleção canônica de 27 livros que
conhecemos hoje.
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